Nas últimas décadas, o uso de antidepressivos cresceu significativamente, acompanhado de um hábito muito comum em nossa cultura: o consumo de bebidas alcoólicas. Muitas vezes, essa combinação acontece porque a ansiedade e a depressão coexistem com o uso de substâncias, criando um ciclo no qual o paciente busca no álcool um alívio imediato para o seu sofrimento emocional.1 No entanto, estudos mostram que essa interação é muito mais complexa e perigosa do que uma simples perda de efeito do medicamento.2
Um dos achados mais intrigantes sobre essa mistura é como a interação de álcool e antidepressivos altera a percepção do prazer.2 Quando uma pessoa consome álcool sob o efeito de certos antidepressivos, como os inibidores da recaptação de serotonina (ex., fluoxetina, sertralina e escitalopram), ela pode não sentir a euforia ou o relaxamento típicos da embriaguez. Esse fenômeno, chamado de “prazer embotado”, é uma armadilha perigosa.2 Como o indivíduo não sente o efeito da bebida, ele tende a beber volumes muito maiores para tentar alcançar a sensação desejada. O resultado é um risco maior de intoxicação e danos à saúde, muitas vezes sem que a pessoa perceba o perigo imediato, já que o mal-estar nem sempre aparece na hora.
Para além das sensações subjetivas, o corpo sofre impactos físicos silenciosos e profundos.1 O fígado, responsável por processar tanto a medicação quanto o álcool, pode dar sinais de sobrecarga. Somado a isso, o álcool pode aumentar os efeitos colaterais dos antidepressivos no sistema nervoso central, tais como sonolência e tontura.3 O álcool também pode reduzir a resposta ao antidepressivo e à adesão do paciente, equanto promove a impulsividade, podendo aumentar o risco de suicídio.
A biologia e o comportamento também mostram nuances diferentes entre homens e mulheres. No público feminino, a depressão costuma estar ligada a um consumo de álcool mais elevado, independentemente de estarem ou não medicadas.4 Já entre os homens, o uso do antidepressivo parece ajudar a reduzir o desejo de beber, sugerindo uma resposta positiva ao tratamento ou às orientações médicas. No entanto, a regra de ouro para ambos é a mesma: a orientação médica e a honestidade com o seu tratamento. Ocultar o hábito de beber dificulta o ajuste das doses e coloca em risco a eficácia do tratamento psiquiátrico, tornando essencial uma abordagem que cuide tanto da mente quanto do corpo de forma integrada.
Nota: Este texto é informativo e baseia-se em estudos científicos. Não substitui o aconselhamento médico profissional.