A pesquisa, conduzida por Grubbs e Kraus (2024),1 analisou dados de 4.363 adultos residentes nos Estados Unidos, coletados entre março e abril de 2022. A amostra incluiu tanto uma parcela representativa da população geral quanto um grupo adicional de apostadores esportivos, o que permitiu comparações robustas entre quem aposta e quem não aposta. O consumo excessivo de álcool foi avaliado por meio de um questionário (National Institute on Drug Abuse Quick Screen) que considera beber pesado episódico (BPE) o consumo de cinco ou mais doses em uma única ocasião para homens, e quatro ou mais para mulheres.
Entre os participantes, 1.812 foram identificados como apostadores esportivos, e o perfil desse grupo chamou atenção: eram predominantemente homens e mais jovens, com idade média de 45,8 anos, cerca de quatro anos mais jovens que a média geral da amostra. Quando se observou a frequência do binge drinking, os apostadores esportivos apresentaram taxas desproporcionalmente mais altas de consumo excessivo mensal, semanal e até diário, ao passo que relataram com menor frequência a ausência total de BPE nos últimos 12 meses.
Um dos achados mais marcantes do estudo se refere à magnitude desta associação. Nas análises de regressão logística, que controlaram variáveis como idade e raça/etnia, mulheres que apostavam em esportes apresentaram uma chance cerca de 14 vezes maior de relatar binge drinking diário ou quase diário em comparação com mulheres não apostadoras. Entre os homens, essa chance foi aproximadamente 9 vezes maior. Mesmo para frequências menores, como semanal ou mensal, os apostadores esportivos de ambos os sexos mostraram chances significativamente elevadas em relação aos não apostadores, sugerindo que a associação entre apostas e consumo excessivo de álcool não se limita aos casos mais extremos.
É importante destacar que esse padrão se manteve mesmo quando comparado ao grupo de apostadores de outras modalidades que não envolvem esportes, como caça-níqueis, roleta e loteria. Ou seja, há algo específico nas apostas esportivas que parece estar ligado a um comportamento de consumo de álcool particularmente arriscado. Pesquisas anteriores já haviam apontado que apostadores esportivos tendem a apresentar maior inclinação para comportamentos de risco de maneira geral,5,6 o que pode ajudar a explicar esse achado.
Os próprios autores reconhecem algumas limitações do estudo: o desenho transversal não permite afirmar que as apostas causam o consumo excessivo de álcool (ou vice-versa), e o uso de métodos de amostragem por painel online pode limitar a generalização dos resultados. Ainda assim, os dados são consistentes com pesquisas anteriores que demonstram que apostadores esportivos relatam mais sintomas de transtorno por uso de álcool.3,4
Diante da rápida expansão das apostas esportivas, impulsionada pela legalização em diversos estados norte-americanos e, mais recentemente, em outros países como o Brasil, esses resultados reforçam a necessidade urgente de políticas públicas integradas. Compreender como as novas tecnologias de apostas influenciam a prevalência e a apresentação de transtornos relacionados ao álcool é fundamental para proteger a saúde de populações cada vez mais expostas a esse duplo risco.
Nota: Este texto é informativo e baseia-se em estudos científicos recentes. Não substitui o aconselhamento médico profissional.







