A obesidade é hoje um dos principais desafios de saúde pública no mundo. Ela está associada a doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e redução da expectativa de vida. Entre os diversos fatores que contribuem para o ganho de peso, o consumo de bebidas alcoólicas tem recebido atenção crescente da ciência.
O álcool fornece aproximadamente 7 kcal por grama, valor energético próximo ao da gordura (9 kcal/g) e superior ao dos carboidratos e proteínas, ambos com 4 kcal/g. Essas calorias podem contribuir para um balanço energético positivo, especialmente quando o consumo é frequente ou em grandes quantidades¹.
Uma ampla revisão publicada na revista Critical Reviews in Food Science and Nutrition, que analisou 127 estudos observacionais, investigou a relação entre ingestão de álcool e excesso de peso¹. Os resultados indicaram que, em estudos transversais, o consumo de álcool esteve associado a maior chance de sobrepeso e obesidade abdominal. Quando a análise considerou a quantidade ingerida, observou-se que o consumo elevado (acima de 28 g de álcool por dia) esteve associado a maior probabilidade de sobrepeso e obesidade abdominal em comparação a não consumidores ou consumidores leves. Já o consumo leve não apresentou associação consistente com obesidade em estudos de coorte.
Outra meta-análise, publicada no Journal of Epidemiology and Public Health, avaliou especificamente adultos e encontrou que o consumo de álcool esteve associado a aumento de aproximadamente duas vezes na chance de obesidade em estudos incluídos na análise². O estudo também destacou que a idade influencia esse risco, uma vez que o metabolismo e o padrão de atividade física tendem a mudar ao longo da vida.
Além da questão calórica, pesquisas mais recentes mostram que a relação entre álcool e obesidade pode ir além da simples soma de calorias. Um artigo publicado na revista Molecular Psychiatry discute como o álcool e a obesidade compartilham mecanismos biológicos semelhantes, envolvendo circuitos cerebrais de recompensa, regulação do apetite, hormônios intestinais e inflamação sistêmica³. Isso significa que o consumo de álcool pode influenciar o comportamento alimentar, a sensação de saciedade e até mesmo a preferência por alimentos mais calóricos.
Outro ponto relevante é que o álcool pode afetar o metabolismo hepático e favorecer o acúmulo de gordura no fígado, principalmente se consumido de forma abusiva. Quando associado ao excesso de peso, o risco de doença hepática aumenta significativamente³. Estudos mostram que a combinação entre obesidade e consumo elevado de álcool pode acelerar o desenvolvimento de doenças hepáticas.
É importante destacar que os resultados variam conforme o padrão de consumo. O consumo leve ou ocasional não apresenta associação consistente com obesidade em estudos longitudinais¹. Por outro lado, o consumo elevado e regular está mais frequentemente associado ao ganho de peso e à obesidade abdominal, tipo de gordura corporal que apresenta maior risco cardiometabólico.
Do ponto de vista da saúde pública, esses achados reforçam que o álcool deve ser considerado não apenas pelos seus efeitos sobre fígado, cérebro e risco de dependência, mas também como uma fonte relevante de calorias na dieta. Reduzir o consumo excessivo pode contribuir não apenas para menor risco de doenças relacionadas ao álcool, mas também para o controle do peso corporal.
Em síntese, as evidências científicas indicam que:
- O álcool fornece calorias significativas e pode contribuir para balanço energético positivo.
- O consumo elevado está associado a maior chance de sobrepeso e obesidade, especialmente abdominal.
- O consumo leve apresenta resultados inconsistentes quanto ao risco de obesidade.
- Álcool e obesidade compartilham mecanismos biológicos relacionados à regulação do apetite e recompensa.
A relação entre álcool e obesidade depende da dose, da frequência, do padrão de consumo e das características individuais. Informar a população sobre essas evidências é fundamental para decisões conscientes relacionadas à saúde.







