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Carnaval e Álcool: por trás da folia, um custo para a saúde e a segurança. Por Wilson Catapani

By Wilson Catapani 09 Fevereiro 2026

O Carnaval, a festa mais vibrante e esperada do Brasil, é um momento de pura alegria, extravasamento e celebração cultural para milhões. No entanto, em meio a essa ebulição, há um companheiro frequente que, se consumido sem moderação, pode transformar a festa em um cenário de graves problemas para a nossa saúde e segurança: o álcool.

Nosso propósito aqui é comentar sobre o preço oculto que o consumo excessivo de álcool nos cobra, um custo que se estende muito além da simples ressaca e impacta profundamente o indivíduo e a sociedade.

Falsa Liberdade, Consequências Reais

A atmosfera de "liberdade" e "descontração" no Carnaval é, muitas vezes, mal interpretada como uma licença para beber sem limites. O que se inicia como uma festa, pode rapidamente evoluir para um cenário preocupante, sobrecarregando hospitais e delegacias. O álcool, uma substância psicoativa, age diretamente no nosso sistema nervoso central, comprometendo funções cerebrais vitais. Ele afeta o córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio e julgamento, e o cerebelo, que controla a coordenação motora. Essa ação resulta em prejuízo do raciocínio lógico, da coordenação de movimentos e da velocidade de reação. Sob o efeito do álcool, nos tornamos, e consequentemente aqueles ao nosso redor, muito mais vulneráveis a acidentes, situações de risco e decisões impulsivas. O padrão de consumo conhecido como "binge drinking" (consumo excessivo em um curto período) é particularmente comum e perigoso durante este período.

No Trânsito: Um Risco Elevado e Previsível

É alarmante observar os índices de acidentes de trânsito reportados pelo  Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN) e pelas forças policiais durante o Carnaval. Estes índices revelam que, em grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, o número de acidentes com feridos graves e mortes pode aumentar em cerca de 20% a 40%. Beber e dirigir emerge como a principal causa em mais de 60% desses incidentes. O álcool prejudica a visão periférica, diminui a capacidade de avaliar distâncias e velocidades, e gera uma falsa sensação de confiança, tornando o condutor um perigo iminente. As rigorosas campanhas da Lei Seca, que resultam em milhares de motoristas autuados e penalizados com multas pesadas, suspensão da carteira de motorista e até processos criminais, são um testemunho incontestável da gravidade e persistência desse problema, que é, em sua essência, totalmente evitável.

Na Sociedade: Violência, Vulnerabilidade e Quebra de Vínculos

A euforia induzida pelo álcool, muitas vezes ilusória, pode facilmente descambar para a agressividade. A desinibição e a diminuição do controle dos impulsos aumentam significativamente o risco de brigas, assaltos e, o mais grave, casos de violência sexual e doméstica. Estudos epidemiológicos indicam que o álcool está presente em cerca de um terço dos casos de violência interpessoal, e desempenha um papel crucial em muitos episódios de violência contra a mulher, onde a capacidade de consentimento é frequentemente comprometida pela intoxicação, seja da vítima, do agressor ou de ambos. Além disso, a embriaguez nos torna alvos mais fáceis para crimes como roubos, furtos e golpes, pois criminosos se aproveitam da redução da  capacidade de percepção e reação de um indivíduo alcoolizado.  Essa escalada de violência não apenas causa danos individuais profundos, mas também sobrecarrega os sistemas de segurança pública e de justiça.

No Corpo: Mais que Uma Ressaca – Um Ataque Multissistêmico

Além dos impactos sociais e de segurança, o consumo excessivo de álcool impõe uma carga pesada ao nosso organismo:

  • Pronto-socorros Lotados : Há um aumento exponencial no número de atendimentos em Hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs),  muitos deles diretamente relacionados ao abuso de álcool. Além de poderem ser emergências médicas em si, essa sobrecarga também desvia recursos e atenção de outras emergências que possam estar sendo atendidas naquela unidade.
  • Intoxicação Alcoólica Aguda : Beber grandes quantidades de álcool rapidamente pode levar a uma intoxicação alcoólica severa.  A concentração sanguínea de álcool eleva-se a níveis perigosos, afetando  funções vitais. Os sintomas progridem de confusão e desorientação para estupor, perda de consciência, dificuldades respiratórias, vômitos incontroláveis com risco de aspiração e, em casos extremos, coma ou morte. Em algumas capitais, os atendimentos por essa condição sobem de 50% a 70% durante o Carnaval.
  • Desidratação e Mal-Estar Generalizado: O álcool possui um potente efeito diurético, aumentando a perda de líquidos pelo corpo. Combinado com o calor intenso e  a atividade física prolongada da folia, essa desidratação pode levar a tonturas, dores de cabeça intensas, cãibras, exaustão e até insolação decorrente de exposição prolongada ao sol. Pessoas com condições preexistentes como doenças cardíacas, diabetes ou problemas respiratórios enfrentam riscos ainda maiores, podendo precipitar crises ou descompensações.
  • Ataque ao Fígado: O fígado é o principal órgão responsável por metabolizar o álcool, utilizando enzimas como a álcool desidrogenase. Quando sobrecarregado, ele pode sofrer danos significativos. Um episódio de exagero pode causar uma inflamação aguda (hepatite alcoólica), manifestada por icterícia (amarelamento da pele), febre, náuseas, dor abdominal e fadiga. Para bebedores crônicos, cada episódio de consumo excessivo acelera a progressão de doenças hepáticas crônicas, como esteatose  e cirrose.
  • Problemas Gastrointestinais (gastrite e esofagite): O álcool irrita diretamente as mucosas do estômago e do esôfago, causando gastrite aguda e esofagite. Isso se manifesta como azia intensa, queimação, náuseas e vômitos persistentes por dias. Indivíduos com refluxo gastroesofágico preexistente experimentam uma exacerbação significativa dos sintomas.
  • Risco de Pancreatite Aguda: O consumo excessivo de álcool é uma das possíveis  causas de pancreatite aguda, um quadro potencialmente grave  de inflamação do pâncreas. Essa condição pode levar a dor abdominal intensa, náuseas, vômitos, febre e, em casos graves, complicações sérias como necrose tecidual e falência de múltiplos órgãos.
  • Saúde Mental:  "depressão pós-Carnaval" é uma realidade para muitos. O álcool, embora inicialmente possa gerar uma sensação de euforia, é um depressor do sistema nervoso central. Ele desregula neurotransmissores como serotonina e dopamina, intensificando sentimentos de ansiedade, tristeza, irritabilidade e disforia no período de abstinência. Pessoas com histórico de transtornos de saúde mental podem sofrer recaídas ou agravamento de seus sintomas. Além disso, o abuso de álcool na folia pode ser um gatilho para o desenvolvimento ou agravamento de dependência de álcool.

Como Curtir Sem Sobrecarga e com Responsabilidade? 

Diante de todos esses riscos, o grande desafio é equilibrar a efervescência da festa com a proteção da nossa saúde e segurança. A boa notícia é que é perfeitamente possível desfrutar do Carnaval em sua plenitude sem cair nos excessos. A prevenção, a moderação e o autocuidado são as chaves para uma celebração verdadeiramente  segura.

Para um folião consciente, a preparação para a festa começa muito antes de sair de casa:

  • Hidrate-se Constantemente e Inteligentemente: Alterne o consumo de cada dose de bebida alcoólica com um copo de água. Isso é crucial para combater o efeito diurético do álcool e o calor do Carnaval, prevenindo a desidratação. Água de coco, isotônicos e sucos naturais também são excelentes opções para repor eletrólitos e nutrientes.
  • Coma Bem e Estrategicamente: Nunca beba de estômago vazio. Faça refeições nutritivas e balanceadas antes e durante a festa. Alimentos ricos em proteínas e carboidratos complexos (como massas integrais, carnes magras) ajudam a retardar a absorção do álcool, minimizando seus efeitos.
  • Beba com Calma, Consciência e Respeite Seus Limites: O objetivo primordial é a diversão e a celebração, não a embriaguez. Defina um limite pessoal de consumo antes de começar a beber e tente cumpri-lo. Aprecie a festa e a companhia. Evite misturar diferentes tipos de bebidas alcoólicas, pois isso pode dificultar o controle da quantidade ingerida e acelerar a intoxicação.
  • Descanse Adequadamente: Seu corpo e mente precisam de tempo para se recuperar. Garanta horas de sono suficientes e períodos de relaxamento entre os dias de folia para manter a energia e a clareza mental.
  • Se Beber, Não Dirija – Planeje com Antecedência: Esta é uma regra inegociável. Utilize táxis, aplicativos de transporte, transporte público ou designe um "motorista da vez" que se comprometa a não consumir álcool. A vida de todos os envolvidos no trânsito é preciosa demais para ser colocada em risco por uma escolha irresponsável.
  • Proteja-se do Sol e do Calor: Use protetor solar com alto fator de proteção, óculos de sol, chapéu ou boné e roupas leves. Procure áreas sombreadas. Essa proteção não só previne insolação e queimaduras, mas também evita a exaustão física que pode levar à necessidade de beber mais para "compensar" o desconforto.
  • Fique Atento aos Sinais do Corpo e Busque Ajuda: Dores de cabeça persistentes, náuseas intensas, tontura excessiva ou qualquer mal-estar incomum são alertas. Ouça seu corpo e diminua ou pare de beber. Em caso de sintomas graves ou persistentes, não hesite em procurar atendimento médico.

O Carnaval, em sua essência, é um reflexo da nossa sociedade. A maneira como o celebramos, especialmente em relação ao consumo de álcool, tem um impacto direto e profundo na saúde pública, na segurança coletiva e no bem-estar individual. Não se trata de cercear a alegria ou proibir a diversão, mas sim de cultivá-la de forma sustentável, consciente e responsável.

Os dados e as experiências demonstram que a irresponsabilidade com o álcool deixa cicatrizes profundas, elevando os índices de acidentes, violência e sobrecarregando de forma crítica nosso sistema de saúde. Estejamos preparados para transcender a euforia passageira e refletir sobre as escolhas que fazemos. A verdadeira liberdade reside na capacidade de cuidar de nós mesmos e de zelar pelos outros. Que a ressaca , se houver, seja apenas um pequeno incômodo, e não uma dívida pesada com a nossa saúde e com a vida. O Carnaval pode e deve ser uma festa de alegria consciente, respeito ao corpo e celebração da vida em sua plenitude!

 

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© CISA, Centro de Informações sobre Saúde e Álcool